Investigação

Diagnóstico precoce de doenças
20-07-2016
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O Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP) tem debruçado a sua atividade sobre as mais variadas áreas. Desde a informática às energias sustentáveis, passando pela saúde, nada é deixado ao acaso. Neste contexto, a BioMark, Sensor Research, tem assumido particular relevância no que respeita à constante busca de soluções aplicáveis, por exemplo, no diagnóstico de doenças.

Os projetos 3P’s (plastic antibodies, photovoltaics, plasmonics) e Symbiotic, da responsabilidade das investigadoras Goreti Sales e Lúcia Brandão, respetivamente, têm suscitado nos últimos tempos uma grande atenção por parte dos media portugueses. Embora ambos decorram de forma distinta, no fundo acabam por se complementar. De facto, sem um não teria surgido o outro. Neste sentido, e apesar dos primeiros passos em torno da criação de um dispositivo de diagnóstico precoce do cancro terem sido dados há algum tempo, importa perceber os avanços registados e as principais caraterísticas destes dois trabalhos, no mínimo, revolucionários.

De uma forma simples, o projeto 3P’s aposta no uso de células fotovoltaicas que, uma vez modificadas com anticorpos plásticos, vão usar os princípios subjacentes ao sistema imunitário para detetar a presença de biomarcadores associados a doenças. “Inicialmente, a ideia foi lançada para rastreio de doenças cancerígenas. No entanto, com a evolução da investigação [fruto de uma bolsa Starting Grant, do European Research Council, no valor de um milhão de euros] percebeu-se que o dispositivo criado pode ser aplicado a outras enfermidades como, por exemplo, diabetes”, explica a coordenadora da BioMark e responsável do 3P’s, Goreti Sales.

Na prática o dispositivo assemelha-se a um teste de gravidez, pelo que na presença de um biomarcador acusará, por alterações de cores, a presença ou ausência de doença. “No início do ano, a patente da ideia foi aceite pelo Instituto Nacional de Propriedade Intelectual [INPI] e vai ser publicada em 2017, sendo que, assim, se salvaguarda o desenvolvimento de um dispositivo disruptivo, inovador e sem par no mundo”, destaca a docente do ISEP.

Segundo Goreti Sales, os desenvolvimentos mais significativos do projeto até à data respeitam à prova de conceito, tendo-se verificado positivamente a exequibilidade do mesmo, acrescentando a isso um certo cariz de transversalidade, visto que pode ser aplicado em qualquer doença. “O 3P’s tem duas mais-valias, nomeadamente a possibilidade de realização de análises em qualquer local [seja em Portugal ou na Etiópia, devido à autonomia gerada face à ausência de energia elétrica], e o facto de permitir um processo de análise barato e rápido”, afirma.

Com a existência de uma parceria com o Instituto Português de Oncologia do Porto (IPO), prevê-se brevemente uma nova fase do projeto, ou seja, a implementação de testes em amostras reais, como sangue, saliva e urina. No entanto, já têm vindo a ser levadas a cabo algumas experimentações em ambientes realistas, embora a dimensão da amostra seja relativamente mais reduzida.

Um ano de Symbiotic repleto de sucesso 

Não faria sentido falarmos do 3P’s sem mencionar o Symbiotic. A ideia surgiu de uma simples conversa entre Goreti Sales e Lúcia Brandão no âmbito do emprego das células fotovoltaicas em biossensores. Depois disso, verificou-se o nascimento de outro conceito inovador, ou seja, o uso de células de combustível (alimentadas a metanol). Apesar dos dois projetos serem análogos, a principal diferença reside aí mesmo – na tipologia e origem da fonte de energia.

Um ano depois do arranque oficial do Symbiotic, o balanço não poderia ser mais positivo. “Já conseguimos com sucesso comprovar o conceito do projeto. Portanto, isto de adicionar um sensor da parte da biologia e bioquímica a um dispositivo eletroquímico com vista à autonomia elétrica é completamente novo, não existia nada disto. Até agora, provamos que, sim, é possível levar a investigação para a frente”, conta a investigadora responsável, Lúcia Brandão.

No final, serão dois produtos distintos resultantes de ambos os projetos, os quais configuram e perspetivam benefícios para a sociedade. Todavia, é necessário que alguém queira investir e comercializar a ideia, objetivando a transferência de tecnologia de uma forma sustentável e em larga escala. “Com o Symbiotic teremos um dispositivo barato passível de utilização em consultas de rotina, em que qualquer médico de família consiga analisar os biomarcadores do cancro, sem ser necessário despesas grandes ou equipamentos complexos”, acrescenta a docente do ISEP.

Recorde-se que o Symbiotic dispõe de um financiamento por parte da Comissão Europeia na ordem dos 3,4 milhões de euros, inserindo-se no programa Horizonte 2020. Além do ISEP, que assume a coordenação do projeto, os trabalhos são também desenvolvidos por outras entidades: Universidade Nova de Lisboa (UNINOVA); Aarhus University/iNano (Dinamarca), Imperial College of London (Reino Unido) e o VTT Technical Research Centre (Finlândia).